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ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL: INTERVENÇÕES EM GRUPO



Marcele Karasinski


O trabalho é um aspecto de grande importância na vida das pessoas. No entanto, a possibilidade de escolher uma profissão é uma opção relativamente recente. Durante muitos séculos a ocupação de um indivíduo era determinada pela camada social ou pela família a qual ele pertencia. O nível social e o campo ocupacional de uma pessoa eram determinados pelo seu nascimento, sendo o aprendizado de tarefas realizado dentro das famílias, uma vez que os pais ensinavam seus ofícios aos filhos (MOURA, 2001).

            Essa restrição, quase imposta pelo contexto, à escolha profissional, não era vista propriamente como um problema, uma vez que não existia muita diversificação dos ofícios que poderiam ser exercidos (MOURA, 2001).

            O aumento significativo dos processos de industrialização e de intercâmbio comercial, observados no final do século XIX, criou formas distintas de trabalho e, novos ofícios começaram a surgir. Assim, a nova realidade sócio-econômica passou a oferecer a possibilidade de se escolher entre as alternativas ocupacionais que estavam emergindo (Neiva, em MOURA, 2001).


            Como conseqüência dessas alterações sociais, surgiu também a necessidade de que os indivíduos fossem orientados quanto às escolhas que poderiam fazer. Para cumprir esta tarefa, nasceu em 1902 a “Psicologia Vocacional”, com a instalação do primeiro centro de orientação profissional, em Munique (MOURA, 2001).

Segundo Gemelli (em Moura, 2001), este centro tinha como objetivo principal identificar os indivíduos desprovidos de capacidade para executar determinadas tarefas, com vistas a evitar acidentes de trabalho.

            Verifica-se então, que a preocupação, nesta época, estava mais voltada às atividades a serem desempenhadas do que às necessidades e capacidades dos trabalhadores. Porém, já começavam a aparecer a realização de atividades institucionais voltadas às necessidades sociais e pessoais dos indivíduos com relação à profissão (MOURA, 2001).

            Somente após a Segunda Guerra Mundial é que os programas de orientação profissional tomaram forma, entraram em um período de rápida expansão, ampliaram seu alcance, e atingiram seu status atual (Dean & Meadows, em MOURA, 2001).

Então, observa-se que, a orientação profissional no mundo vem se desenvolvendo desde o início do século através do trabalho de psicólogos, preocupados em orientar as pessoas para melhores oportunidades de trabalho.

Sendo assim, esse processo, conceituado por BOHOSLAVSKY(1993), como um conjunto de atividades distintas, que correspondem a quadros de referência, orientações teóricas, concepções filosóficas e científicas, e diversas técnicas de trabalho, passou a ser muito mais dinâmico.

Atualmente, o mundo passa por um processo de rápidas e constantes transformações, o que impõe a necessidade permanente de novos referenciais, de novos paradigmas e de novas visões (Capra, em SILVA & BIRK, 2002). Isso influência diretamente a escolha profissional, pois uma sociedade cada vez mais complexa e globalizada, aumenta também a divisão social do trabalho.

            Percebe-se então, que a análise da atual conjuntura sócio-econômica e política da realidade brasileira e mundial, assim como da organização do comércio e do trabalho é extremamente importante em um processo de orientação vocacional. Isso possibilita aos indivíduos a construção de uma visão de crítica, capaz de transcender suas questões pessoais e locais, para elaborar vínculos com a complexidade do mundo do trabalho de forma realista e consciente da profissão que irão escolher.           

            A escolha dessa profissão sofre influência de múltiplos fatores e as dificuldades encontradas para realizá-la afetam pessoas de todas as faixas etárias. De acordo com Whitaker (em MOURA, 2001), problemas com decisões profissionais e mudança de carreira são relativamente comuns ao longo da trajetória de vida dos indivíduos.

No entanto é na adolescência que o jovem se depara pela primeira vez com a necessidade de escolher uma profissão ou mesmo de iniciar-se no mercado de trabalho (MOURA, 2002).

SILVA & BIRK (2002) afirmam que entre as dificuldades para a realização da escolha de uma ocupação, neste período, destacam-se: a necessidade de uma maior aproximação, por parte dos jovens, com a realidade do mundo do trabalho; as expectativas deles, bem como a dos pais de manutenção do status sócio-econômico; as dúvidas e inquietações características da adolescência; e a insegurança e o desejo de retardar a decisão, ocasionadas pela percepção das inúmeras dificuldades e das imensas possibilidades do mercado de trabalho.

Segundo MOURA (2001) toda decisão envolve uma certa dificuldade porque implica em escolhas, e na adolescência essa escolha gera mais conflito tanto em função das dificuldades próprias desta fase, como também pelas sérias implicações que a decisão presente pode acarretar no futuro.

       Para compor sua tomada de decisão, o adolescente deve considerar a influência dos meios de comunicação, como rádio, revistas, jornais, programas de televisão, e a mídia de forma geral, que são responsáveis por promover certas carreiras em determinadas épocas (Whitaker; Macedo, em MOURA, 2001). Além da mídia, LEVENTUS & NUNES (2002) consideram a questão financeira e as expectativas dos pais nessa tomada de decisão.

No entanto, as escolhas realizadas pelas pessoas são resultado tanto das condições e influências do meio, como das características pessoais de cada um (SILVA & BIRK, 2002).

Segundo Neiva (em MOURA, 2001), uma escolha profissional madura, consciente e ajustada requer adquirir, analisar e integrar conhecimentos, desenvolvendo atitudes e habilidades que permitam aprender e decidir.

 Esta autora afirma ainda, que dois tipos de conhecimento são importantes: o que se refere aos aspectos pessoais de quem escolhe (autoconhecimento) e o que se refere aos aspectos externos a que escolhe (conhecimento da realidade profissional) (MOURA, 2001).

Muitos autores apontam o conhecimento sobre as características pessoais, as motivações, interesses, potencialidades, habilidades, valores, aspirações, conflitos e ansiedades ligados ao processo de escolha, medos e expectativas em relação ao futuro, com os principais aspectos a serem conhecidos e analisados num trabalho de Orientação Profissional (MOURA, 2001).

SILVA & BIRK (2002) afirmam que, ao abordar a complexa questão da evolução da história pessoal de cada um, pretende-se, em primeiro plano, efetuar uma extensa tomada de consciência das qualidades, interesses, gostos, habilidades, desejos, expectativas e valores pessoais de cada indivíduo.

Essa tomada de consciência é muito importante para que os adolescentes possam formular projetos profissionais realistas e compatíveis com suas características pessoais.  Segundo SILVA & BIRK (2002), a intenção primordial desse processo deve consistir em oportunizar a cada indivíduo uma retrospectiva de sua vida e uma objetivação da história pessoal.

Apesar de o desenvolvimento do autoconhecimento ser apontado pelos autores como objetivo inicial da orientação, nenhum deles descarta sua importância durante todo o processo. Até mesmo nas fases onde os aspectos ocupacionais estão sendo abordados pode-se desenvolver autoconhecimento pelo confronto das características pessoais de cada adolescente com as informações específicas das profissões (MOURA, 2001).

A busca dessas informações é, de acordo com LEVENFUS & NUNES (2002), um dos principais itens para um processo consistente de Orientação Profissional. Esse procedimento visa à obtenção de informações complementares ou correções acerca das profissões existentes no mercado atual.

 Para Biggers (em MOURA, 2001), é importante que o adolescente disponha de um mínimo de conhecimento sobre as profissões existentes, ou pelo menos que saiba qual é a atividade principal de cada uma delas. Esse conhecimento mínimo lhe permitirá eliminar uma grande parte delas e interessar-se por aprofundar-se em outras.

Um conhecimento mais profundo das profissões de interesse, segundo Neiva (em MOURA, 2001), deverá abarcar os seguintes pontos: objetivos da profissão, atividades específicas, curso de formação (universidades, currículos, duração, titulação, exigências, etc), áreas de especialização, mercado de trabalho e faixas salariais.

Essas informações, segundo ela, facilitarão ao adolescente identificar as profissões que mais correspondem a seus critérios pessoais de escolha, e ainda o auxiliará a estimar a probabilidade de sucesso de cada alternativa através da integração dos dados profissionais com os dados de autoconhecimento (MOURA, 2001).

Assim, aos poucos, os alunos tomam posse de um grande e variado conjunto de elementos pertinentes à questão da opção, reunindo, por isso, condições para efetuar uma escolha pessoal, crítica e consciente (SILVA & BIRK, 2002).

Segundo a concepção da abordagem comportamental, Skinner (em MOURA, 2001) analisa o processo de tomada de decisão em termos de manipulação de variáveis. De acordo com ele o comportamento de decidir é essencialmente um processo de geração de condições que tornarão um dado curso de ação mais provável que outro.

Skinner afirma ainda que para decidir-se entre cursos de ação diferentes ou alternativos, o indivíduo precisa manipular algumas variáveis das quais seu comportamento é função, isto é, a pessoa precisa controlar o curso de seu próprio comportamento. Assim, “decidir-se”, é, para ele, antes de tudo, um processo de manipulação de classes específicas de estímulos, que pode ser efetuado pela própria pessoa que está se decidindo (MOURA, 2001).

            O decidir-se não é a execução do ato decidido, mas o comportamento anterior responsável por ele (Nico, em MOURA, 2001).

            É a este comportamento anterior que o orientador deve estar atento, visto que um dos problemas da Orientação Profissional reside no fato de que os resultados do processo não são imediatos. Isto ocorre, pois, as conseqüências relativas ao comportamento atual de escolher uma profissão estão localizadas remotamente no futuro, ou seja, residem nas contingências relativas ao exercício futuro da profissão escolhida (MOURA, 2001).

            Este problema requer que o controle imediato da resposta de escolher seja melhor entendido, uma vez que ele não parece residir apenas no redução do conflito proveniente da situação de indecisão.     Por esta razão, no contexto da Orientação Profissional, o aprender a tomar uma decisão pode ser entendido como o resultado final de um processo de resolução de problemas (MOURA, 2001).

             A resolução de problemas, segundo Goldfried & Davison, é um processo comportamental, aberto ou encoberto, que tem como objetivos: fornecer uma variedade de respostas potencialmente efetivas à situação-problema, e aumentar a probabilidade de seleção da resposta mais efetiva dentre as várias alternativas (MOURA, 2001).

            Desta forma, Orientação Profissional deve se preocupar em produzir um aumento geral na efetividade da pessoa em solucionar problemas, através do treinamento em habilidades que permitirão a ela tomar decisões de forma independente. A importância desta aprendizagem reside no fato de que tais habilidades parecem ser altamente requeridas do indivíduo, tanto no momento de decidir-se por uma profissão, quanto no seu exercício futuro (MOURA, 2001).

            A prática da Orientação Profissional sob enfoque da Análise do Comportamento pressupõe, então, a modelagem de classes comportamentais precorrentes relacionadas à escolha e à decisão (Moraz, em MOURA, 2001).

            O produto e o conteúdo da escolha são de menor relevância quando comparados à primazia da aprendizagem de decidir e/ou escolher, que caracteriza o objetivo geral da orientação (MOURA, 2001).

            Assim, a Orientação Profissional, além de auxiliar na exploração de alternativas, deve ajudar o indivíduo a desenvolver um conjunto de habilidades que aumentarão a probabilidade de que ele selecione critérios consistentes de tomada de decisão, e aprenda uma forma mais efetiva de resolução de problemas que pode se estender a várias situações do contexto de escolha profissional (MOURA, 2001).

            Esse trabalho de Orientação Profissional pode ser realizado de forma individual ou grupal. O trabalho com grupos tem comprovado sua eficiência em diversas situações e conflitos vividos pelo homem. Na orientação profissional, a atividade em grupo é facilitadora do processo de identidade grupal e individual, pois a troca de experiências, o relato de vivências, e a tendência natural do adolescente para se agrupa torna o enfoque grupal indispensável para a realização desse processo (SOARES & KRAWULSKI, 2002)

A modalidade grupal de atendimento em orientação profissional costuma ser adotada com mais freqüência em escolas, cursos pré-vestibulares e serviços de atendimentos, haja vista a concentração da demanda (SOARES & KRAWULSKI, 2002).

Nesta forma de trabalho, a demanda do grupo como um todo é que baliza todo o processo, o que requer uma constante leitura das necessidades trazidas pelo grupo (SOARES & KRAWULSKI, 2002).

            Quando se realiza esse tipo de intervenção, o orientador deve analisar com cautela tanto as técnicas a serem escolhidas como o momento adequado do grupo para a utilização de cada uma delas (SOARES & KRAWULSKI, 2002).

Esses mesmos autores definem técnica como sendo qualquer recurso utilizado pelo orientador para viabilizar sua intervenção profissional, levando os orientandos a entrar em contato com a questão da escolha profissional, reconhecendo suas demandas internas a as pressões externas.

A realização do trabalho em grupo segundo SOARES & KRAWULSKI (2002), pressupões quatro encaminhamentos básicos: a seleção dos participantes do grupo, o levantamento de expectativas desses participantes, o estabelecimento de um contrato psicológico (compromisso de cada indivíduo com o processo), e a avaliação final do trabalho.

O papel do orientador consiste em ser um mediador e auxiliar os participantes a desenvolverem reflexões que contribuam para sua escolha profissional. Já a postura deste, nesse processo está intimamente atrelado ao seu referencial teórico (SOARES & KRAWULSKI, 2002).

Na abordagem comportamental, a postura que o orientador assume é de  um facilitador que cria os meios pelos quais o indivíduo pode analisar suas opções profissionais frente às suas opções pessoais e tomar sua decisão.(MOURA, 2001)

Isso é feito com o orientador apontando e discutindo com o grupo os determinantes de suas escolhas pessoais e proporcionando um contexto adequado para que os membros vivenciem seu próprio processo de autoconhecimento de forma a se definirem conscientemente de suas opções profissionais. Além disso, orientador deve dar e propiciar feedbacks entre os elementos do grupo (MOURA, 2001).

            Neste referencial teórico os objetivos gerais de todo o processo são: analisar junto aos adolescentes os diferentes níveis de variáveis controladoras implicadas na escolha de uma carreira profissional; levar o adolescente a observar e discriminar as relações existentes entre escolha profissional e história de vida e como ambas fazem parte do processo de desenvolvimento pessoal; desenvolver habilidades necessárias para a tomada de decisão que caracteriza o resultado final do processo de escolha profissional; proporcionar oportunidade para que os membros do grupo possam expor seus pontos de vista, expectativas, sentimentos em relação ao momento de escolha, de forma a contribuir para a facilitação do processo de tomada de decisão; fornecer informações, esclarecer e apoiar emocionalmente o adolescente em seu processo de escolha profissional, possibilitando uma decisão madura baseada em suas possibilidades reais.

A orientação, então, é dinâmica com participação ativa do sujeito, na qual o orientando se envolve com a aprendizagem de tomada de decisão e assunção da responsabilidade pelas próprias escolhas (MOURA,  2001).



REFERÊNCIAS 

ANGERAMI-CAMON, V. A. Desafio aos jovens. Em Revista Viver. nº124. ano XI. Maio de 2003.

BOHOSLAVSKY, R. Orientação Vocacional: a estratégia clínica. São Paulo: Martins Fontes,  1993.

D`AVILA, G. T; SOARES, D. H. P. Vestibular: Fatores geradores de ansiedade na “cena da prova”.Revista Brasileira de Orientação Profissional, 2003, pp.105-116. 

LEVENFUS, R. S.; SOARES, D. H. P. (org.) Orientação Vocacional Ocupacional: novos achados teóricos, técnicos e instrumentais para a clínica, a escola e a empresa. Porto Alegre: Artmed, 2002.

MOURA, C. B.Orientação profissional sob o enfoque da análise do comportamento. Londrina: Ed. Uel, 2001.

SILVA, I, C. T.; BIRK. C. Um modelo de atendimento em orientação profissional na escola privada. Em LEVENFUS, R. S.; SOARES, D. H. P. et al.Orientação Vocacional Ocupacional: novos achados teóricos, técnicos e instrumentais para a clínica, a escola e a empresa. Porto Alegre: Artmed, 2002.

SOARES, D. H. P. Como trabalhar a ansiedade e o stress frente ao vestibularEm LEVENFUS, R. S.; SOARES, D. H. P. (Org) Orientação Vocacional OcupacIonal: novos achados teóricos, técnicos e instrumentais para a clínica, a escola e a empresa. Porto Alegre: Artmed, 2002.

SOARES, D. H. P.; KRAWULSKI, E. Modalidades de trabalho e utilização de técnicas em orientação profissional. Em: LEVENFUS, R. S.; SOARES, D. H. P. Orientação Vocacional Ocupaiconal: novos achados teóricos, técnicos e instrumentais para a clínica, a escola e a empresa. Porto Alegre: Artmed, 2002.

Por: Marcele Karasinski | 24/06/2009
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