No caso do joanete a coisa é semelhante, mas a grande diferença é que o elemento desprezado está me causando dor e isso compromete de algum modo, meu rendimento. Se me mantiver focado, forçando a atenção para a escrita do texto, tudo bem. Vou conseguir escrever, mas talvez, se der uma parada e direcionar por poucos minutos minha atenção para aliviar a dor nos pés, pode ser que eu me habilite a uma concentração maior e nessa, a produção de um texto melhor. Porém, quem pode tomar esta decisão? Somente eu poderia perceber esse caminho e decidir por ele, pois a questão de prioridade, emergência e busca de resultados se passa dentro de minha mente.
Acontece que muitas vezes nem me apercebo que tenho o poder de decisão sobre minha atenção e assim, sigo fazendo o que se apresenta, em parte inconsciente de que terei um resultado aquém do que teria se trabalhasse minha atenção em algo que não demandaria muito tempo e seria muito salutar e efetivo em termos de resultados.
E no caso do pudim e da maçã, o que acontece é que tenho algumas respostas prontas sobre certas coisas e muitas vezes, não me atento de que devo parar e refletir antes de decidir, principalmente por estar alguns quilos acima do peso. Mas, como um autômato, sigo a resposta padrão que me aproxima mais do que me dá maior prazer. Faço isso sem pensar, de modo habitual e considerando muito normal. Porém, quando estou mais dirigente de minha atenção, me habilito a trabalhá-la com maior sabedoria, dando a oportunidade de me atentar para outras coisas que possam ser mais saudáveis e que representarão mais para meu futuro do que o prazer imediato e ilusório representa para meu aqui e agora.
Isso nos remete à compreensão de que precisamos ficar atentos e cientes de que temos, na maioria das vezes, o poder de decisão sobre as coisas, mas para isso é preciso percebê-las! Posso abrir a geladeira e olhar tão focado para o pudim que nem enxergo o seu entorno, que pode conter vários alimentos que irão saciar minha fome com muito mais saúde e menos açúcar. Focado assim, automatizo rotinas que passam a acontecer cada vez mais sem minha consciência, levando-me a ser quem eu sou e colher o que sempre colhi. Resistir à resposta padrão, dirigir a atenção para o contexto e refletir sobre as opções e caminhos é exercitar nossa sabedoria e engrandecer nosso ser de modo mais humano e menos robótico.
Passar por uma pessoa que pede esmola e “não vê-la” é mais uma maneira que nossa atenção desenvolveu para evitar “atrasos” e “desgastes”. Deixamos de perceber um ser humano que está ali do nosso lado e que talvez, deva merecer um pouco de nossa atenção. Mas como é que podemos dar atenção a algo que nem percebemos? Não há como fazer isso! Só nos atentamos a coisas que estão em nosso espectro de atenção! Essas “cegueiras da atenção” por vezes acontecem e nem tomamos consciência de que ocorreu. Deixamos de ver coisas e situações que seria importante ter percebido, atentado, entendido ou atuado sobre elas. Mas, seguimos sem vê-las e sem apreendê-las.
No ambiente de trabalho ocorrem situações em relação ao serviço para fazer, tudo que precisa para fazê-lo está disponível e você não consegue fazer por que há pessoas ou acontecimentos a sua volta que sua mente não consegue deixar de se atentar. Por isso, sua atenção é cativada pelo ambiente e seu trabalho não acontece. A pergunta é por que sua atenção está tão interessada no que acontece ao seu entorno a ponto de não conseguir focar o importante e urgente?
A resposta é... Só você pode saber! Sim, há algo gerando distração, mas muitos de seus colegas a sua volta estão conseguindo trabalhar e você não! Podemos crer que há algo distorcendo, minando ou comprometendo sua atenção e possivelmente, é algo pessoal, que está dentro de você e que precisa ser trazido à consciência e trabalhado. Portanto, por vezes, distrações são sinais de que está na hora de uma auto-reflexão que seja capaz de identificar a causa de sua desatenção e, a contar disso, a identificação de uma ação pessoal corretiva que traga o controle de sua atenção de volta para você mesmo.
Poderíamos seguir mostrando mais exemplos de como nossa vida é determinada pelo modo como prestamos atenção, ou mesmo argumentar que muitos dos resultados que temos obtido e que não desejávamos são simplesmente consequências da má gestão de nossa atenção. Temos o poder da atenção e acreditamos que somos experts em sua gestão e isso é uma grande ilusão! Nossa atenção mora em nosso cérebro, é a “coisa” mais complexa e misteriosa que existe. Deixando-a funcionar de modo automático, sem nos atentarmos às opções, escolhas e intensidade que ela determina, vamos perdendo tempo, recursos, oportunidades e até mesmo a felicidade. Atentos e senhores de nossa atenção, meditamos e refletimos mais sobre quem somos, onde estamos, o que queremos e como pretendemos chegar lá e desta forma, nossa atenção se torna nossa aliada e subordinada, fazendo aquilo que determinamos ser mais importante, urgente e adequado fazer.
O primeiro passo na direção de nos tornarmos seres mais atentos passa por tomarmos consciência de nossa atenção e passarmos a entendê-la. Atentos à própria atenção, então passaremos a nos habilitar a conhecer o que anda nos movendo, em que direção, por que causa e o que isto tem nos causado. Essa proximidade com nossa atenção revela questões importantes sobre nós mesmos e que talvez levaríamos bom tempo em terapia para alcançar.
Há um mundo dentro de nós que em boa parte nos é desconhecido e ao mesmo tempo, determina nosso ser, estar e fazer acontecer. Estudar atenção é uma forma de lançarmos luz sobre esses pontos internos altamente relevantes, para daí conhecermos mais nossos modelos mentais (padrões que determinam nosso ser) e determinarmos de modo mais adequado o que realmente devemos fazer, de que modo, quando e buscando que resultados.
Mais atentos, ficamos como aquele robô de uma antiga série de TV que balançava os braços e gritava “perigo perigo” quando seus sensores percebiam algo estranho. Aguçamos nossa sensibilidade quando somos melhores gestores de nossa atenção. Além disso, incrementamos nosso potencial criativo já que atentos somos capazes de perceber melhor as coisas e fazer associações que podem ser inovadoras.
Observe mais sua atenção! Entenda seus mecanismos e padrões de resposta e escolhas. Veja o que sua atenção tem lhe propiciado de bom e de ruim. Torne-se o maior especialista de sua própria atenção. Com certeza, estará muito mais preparado para fazer dela sua aliada e não alguém que por vezes passa rasteira ou o remete para caminhos inadequados. Tome tento e fique atento!