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A ATENÇÃO NA ERA DOS EXCESSOS


Baden Powell[1] cunhou no início do século passado o termo: Sempre Alerta. Essa expressão tornou-se célebre como lema do escoteiro. Estar alerta significa perceber coisas que pessoas não alertas não percebem, estar atento à tudo ao seu redor, não ser pego por surpresas. Uma das coisas que se diz no escotismo é que quando uma pessoa qualquer vê alguma coisa um escoteiro já viu há muito tempo.

O curioso é que BP (Baden-Powell) pensou nisso há mais de um século, quando o mundo ainda era um lugar mais ou menos tranqüilo. Não havia grandes megalópoles como as de hoje, congestionamentos gigantescos, comunicação via satélite, internet, televisão etc. O mundo era bem mais simples. A quantidade de informações circulando era infinitamente menor que hoje. As pessoas tinham menos informações para analisar, filtrar, entender, processar. Mas, ainda assim BP disse a seus escoteiros: estejam sempre alerta! Ou em outras palavras: prestem atenção!

O historiador Eric Hobsbawm batizou o século passado de “A Era dos Extremos”. Passamos da produção artesanal para a superprodução em série, saímos do campo para as cidades, tornamo-nos cada vez mais dependentes da tecnologia e com ela geramos mais informação do que conseguimos absorver. Se antes tínhamos o problema de falta de informação, hoje temos o problema inverso: o excesso de informação.

Nesse sentido, talvez possamos associar a presente era de era dos excessos. Temos excessos de todos os tipos na sociedade moderna: excesso de preocupações, excesso de trabalho, excesso de consumo, excesso de lixo, excesso de doenças, excesso de estímulos etc.

Um simples caminhar pelo centro de qualquer cidade é suficiente para observarmos a imensa quantidade de informações que nos circulam. Vemos pessoas, carros, vitrines, cartazes, outdoors, placas entre tantas outras coisas que tentam nos chamar, captar a nossa atenção. Mas não conseguimos dar o mesmo nível de atenção a todas. Segundo o neurofisiologista Joe Dispenza nosso cérebro processa cerca de 400 bilhões de informações por segundo, mas só temos consciência de 2.000, ou seja, 0,00005%.

Como exemplo ilustrativo, um dos grandes diferenciais iniciais do site de pesquisas GOOGLE foi a sua capacidade de filtrar entre os bilhões de informações disponíveis na internet aquela informação que fosse mais relevante ao internauta em sua pesquisa. A disponibilidade de informação já não era diferencial naquele momento, mas sim a capacidade de distinguir a informação relevante.

Nesse contexto trava-se hoje uma verdadeira batalha pela atenção das pessoas. Percebe-se isso pelas campanhas publicitárias. O que os profissionais de marketing querem se não atrair e manter nossa atenção para produtos, serviços, empresas ou conceitos? O que não mudou no último século foi nossa capacidade de dar atenção. Ela continua a mesma, pois atenção nada mais é que um esforço cognitivo em uma determinada direção. Esse esforço é limitado pela nossa condição biológica. Não conseguimos dar atenção a tudo ao mesmo tempo com a mesma eficácia.

No contexto atual ocorre que o aumento da concorrência pela nossa atenção faz com que sem perceber entremos em um processo de fragmentação cognitiva no qual nossa atenção é dividida e enfraquecida por essa divisão. Einstein disse que “se um homem consegue dirigir com segurança ao mesmo tempo em que beija uma mulher, não estará dando a devida atenção ao beijo”.

Na operação verão de 2007 a polícia rodoviária federal afirmou que 33,3% dos 103.128[2] acidentes ocorreram por falta de atenção. Já parou para pensar em quantas coisas devemos prestar atenção no trânsito? Quando estamos aprendendo a dirigir é muito complicado trocar as marchas ao mesmo tempo em que cuidamos do freio e acelerador, mas com o tempo acabamos automatizando esse processo. O que aprendemos, na verdade, é apenas dar a atenção que essas operações precisam receber. Não mais, nem menos. Depois que aprendemos a coisa fica simples.

Uma pesquisa do sindicato da construção civil do estado de São Paulo (Sintracon)[3] apresenta um dado ainda mais alarmante. Segundo essa pesquisa, 73,4% dos acidentes ocorridos em canteiros de obras desse estado tem relação direta com a falta de atenção. Mas o que se observa nos dados da pesquisa também é que as outras causas apontadas, em sua maioria, também têm relação com a desatenção. Assim, esse índice é ainda maior.

Nos dois casos citados a desatenção ocorre quando não percebemos algo, quando não damos o nível adequado de atenção ou quando não damos atenção ao que é necessário. Muitos acidentes de carro ocorrem no momento em nossa atenção é desviada para a troca de CD de música ou quando desviamos o olhar para um acidente ao lado pista, por exemplo.

Talvez você esteja se perguntando nesse momento: mas não se pode dar atenção a mais de uma coisa ao mesmo tempo? A resposta é: sim, podemos! Todavia, devemos fazer isso de modo consciente e de forma que possamos priorizar aquilo que merece nossa atenção no momento presente. Ao dirigir devemos dar atenção a várias coisas importantes, mas a moça bonita que anda pela calçada não é uma delas.

Em muitos casos o problema da desatenção reside no fato de que não controlamos nossa atenção. Comumente deixamos que ela seja controlada por outros. A maioria das pessoas nunca parou para pensar que tanto a mídia quanto os mágicos manipulam nossa atenção de modo que olhamos para o que eles querem que olhemos em detrimento deoutras coisas que eles não querem que vejamos?

A conclusão óbvia é que precisamos fazer a gestão e nossa atenção de modo que o foco dessa atenção seja uma escolha, não uma reação. Em primeiro lugar precisamos fazer uma análise sobre as coisas que são importantes em nosso contexto. Podemos fazer isso sob várias perspectivas. Posso olhar do ponto de vista individual e me perguntar: o que é importante em minha vida? Família, profissão, lazer, saúde, finanças? Talvez todas estas coisas ao mesmo tempo. Talvez devesse priorizar?

Se pensarmos um pouco não será difícil perceber que a distribuição da minha atenção às váriasdemandas dependem contexto. Há momentos em que é necessário foco no trabalho, nesse momento minha família terá menos atenção. Entretanto, se o foco no trabalho permanecer elevado por tempo demasiadamente prolongado pode-se ter problemas. Não só com a família, mas com a saúde também. Não dar atenção ao trabalho, por sua vez, pode comprometer sua carreira, sua capacidade financeira, alterar relações familiares, sociais etc. Se você prestou atenção percebeu que a questão principal está no equilíbrio entre excesso e escassez de atenção em determinado momento.

Dito de outra forma, falar de gestão de atenção é falar da análise dos fatores que merecem atenção em um determinado contexto e o equilíbrio da atenção que é dispensada a esses fatores dentro de um limite temporal. Dar atenção a que e por quanto tempo?

Há momentos em que é necessário focar, outros em que é necessário desfocar. Algumas pessoas têm dificuldade no primeiro processo, não conseguem se concentrar em algo por mais de alguns minutos. Em psicologia estuda-se isso como Transtorno de Déficit de Atenção (TDA). Basicamente não conseguimos foco quando estamos desmotivados, desestimulados ou ao contrário quando estamos em momentos de hiperatividade ou euforia. Em ambos os casos há dificuldade para manter o foco. Por outro lado, algumas pessoas não conseguem “desligar”. Levam trabalho para casa ou problemas de casa para o trabalho. É mais ou menos claro que isso acarreta sérias conseqüências.

Seja qual for o caso, o primeiro passo é prestar atenção na própria atenção. Estar alerta não é necessário apenas ao escoteiro, mas a todos que não querem viver a mercê de qualquer um que não seja si próprio.

Esteja sempre alerta!

Cláudio Aurélio Hernandes

Consultor associado à MEDIARE RH atuando nas áreas de Gestão da Atenção, Gestão Estratégica de Negócios, Empreendedorismo e Processo Decisório.         



[1] Lorde Robert Stephenson Smyth Baden-Powell, general inglês fundador do escotismo.

[2]Disponível em <http://www.adpf.org.br/modules/news/article.php?storyid=38235php?storyid=38235>

[3] Disponível em < http://www.piniweb.com.br/construcao/carreira-exercicio-profissional-entidades/pesquisa-aponta-principais-causas-dos-acidentes-nos-canteiros-de-obras-146022-1.asp >

Por: Cláudio Aurélio Hernandes | 14/10/2009
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