DESENVOLVIMENTO DE HABILIDADES SOCIAIS: O CAMINHO PARA A COMPETÊNCIA PROFISSIONAL
Ao entrar em contato com os objetivos de instituições de ensino e organizações, encontra-se a competência técnica como ponto fundamental para o desempenho profissional. Por outro lado, percebe-se que o desenvolvimento humano e a competência interpessoal raramente são inseridas e valorizadas como objetivo de formação profissional (DEL PRETTE e DEL PRETTE, 2001).
Segundo DORNELAS (2003), as pessoas são o principal ativo das empresas atuais. Baseados nesta perspectiva, os novos paradigmas organizacionais têm priorizado processos de trabalho que remetem diretamente à natureza e qualidade das relações interpessoais. No ambiente de trabalho, são comuns as situações em que habilidades sociais são requeridas. Além disso, sabe-se que muitas vezes o desenvolvimento das habilidades sociais dos funcionários favorece de forma significativa os resultados que a organização alcançará (MIGUEL.; GARBI., 2003).
Nesse contexto, pode-se citar a ênfase na multiespecialização associada à valorização do trabalho em equipe, intuição, criatividade e autonomia na tomada de decisões, ao estabelecimento de canais não formais de comunicação como complemento aos formais, ao reconhecimento da importância da qualidade de vida e à preocupação com a auto-estima e com o ambiente e cultura organizacionais (DEL PRETTE e DEL PRETTE, 2001).
Paralelamente a estas mudanças, surgem demandas para habilidades como as de coordenação de grupos, liderança de equipes, manejo de estresse e de conflitos interpessoais e intergrupais, organização de tarefas, resolução de problemas e tomada de decisões, promoção da criatividade do grupo, etc. As inovações constantes e o desenvolvimento organizacional no mundo do trabalho requerem, ainda, competência para falar em público, argumentar e convencer na exposição de idéias, planos e estratégias. O trabalho em pequenos grupos mostra a necessidade de habilidades de supervisão e monitoramento de tarefas e interações relacionadas ao processo produtivo que, para ocorrerem adequadamente, exigem competência em requisitos como o de observar, ouvir, dar feedback, descrever, pedir mudança de comportamento, perguntar e responder perguntas entre outras (DEL PRETTE e DEL PRETTE, 2001).
Qualquer atuação profissional envolve interações com outras pessoas nas quais são requeridas muitas e variadas habilidades sociais, componentes da competência técnica e interpessoal necessária para o envolvimento em várias etapas de um processo produtivo (DEL PRETTE & DEL PRETTE, 2001).
A conduta socialmente habilidosa é definida por CABALLO (2003) como o conjunto de condutas emitidas por um indivíduo em um contexto interpessoal que expressa sentimentos, atitudes, desejos, opiniões ou direitos deste indivíduo, de um modo adequado à situação, respeitando estas condutas nos outros e que geralmente resolve os problemas imediatos da situação, minimizando a probabilidade de problemas futuros.
Para DEL PRETTE & DEL PRETTE (2001), habilidades sociais refere-se à existência de diferentes classes de comportamentos sociais no repertório do indivíduo para lidar de maneira adequada com as demandas das situações interpessoais. Tais classes de comportamentos podem ser verificadas no Quadro 01.
Quadro 01: Classes de comportamentos que compõe as Habilidades Sociais, segundo a proposta de DEL PRETTE & DEL PRETTE (2001).
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HS de civilidade
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HS Assertivas, Direito e Cidadania
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HS de trabalho
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Dizer por favor
Agradecer
Apresentar-se
Cumprimentar
Despedir-se
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Manifestar opinião, concordar, discordar
Fazer,aceitar e recusar pedidos
Desculpar-se, admitir falhas
Interagir com autoridade
Estabelecer relacionamento afetivo
Encerrar relacionamento
Expressar raiva/deagrado e pedir mudança de comportamento
Lidar com críticas |
Coordenar grupos
Falar em público
Resolver problemas, tomar decisões e mediar conflitos
Habilidades sociais educativas
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HS de comunicação
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HS de expressão de sentimento positivo
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HS empáticas
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Fazer e responder perguntas
Pedir feedback
Gratificar/elogiar
Dar feedback
Iniciar, manter e encerrar conversação |
Fazer amizade
Expressar solidariedade
Cultivar o amor
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Parafrasear
Refletir sentimentos
Expressar apoio
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O termo Habilidades sociais diferencia-se tanto do termo desempenho social como de competência social. O desempenho social refere-se à emissão de um comportamento em uma situação social qualquer. Já a competência social tem sentido avaliativo que remete aos efeitos do desempenho social nas situações vividas pelo indivíduo (DEL PRETTE & DEL PRETTE, 2001).
Muitas vezes, uma pessoa possui as habilidades, mas não as utiliza no desempenho por diversas razões, entre as quais encontra-se a ansiedade, crenças equivocadas e dificuldade de leitura dos sinais do ambiente (DEL PRETTE & DEL PRETTE, 2001).
ALBERTI e EMMONS (2008) identificam 3 barreiras que dificultam a auto-expressão: a) pessoas que não acreditam que tem o direito de serem assertivas; b) pessoas que sentem ansiedade ou medo de serem assertivas; c) pessoas que não tem habilidade para se expressar de maneira eficaz.
Nas dinâmicas das interações, as habilidades sociais fazem parte dos componentes de um desempenho social competente. A competência social qualifica, portanto, a proficiência de um desempenho e refere-se à capacidade de um indivíduo de organizar pensamentos, sentimentos e ações em função de seus objetivos e valores articulando-os as demandas imediatas do ambiente (DEL PRETTE & DEL PRETTE, 2001).
Em termos de efetividade, é possível atribuir competência social aos desempenhos interpessoais que atendem aos critérios:
a) consecução dos objetivos da interação;
b) manutenção ou melhora da auto-estima;
c) manutenção e/ou melhora da qualidade da relação;
d) maior equilíbrio de ganhos e perdas entre parceiros da interação;
e) respeito e ampliação dos direitos humanos básicos.
Embora todos esses critérios não sejam usualmente atendidos em uma mesma situação, pode-se afirmar que quanto mais deles são atendidos simultaneamente, maior competência social pode ser atribuída ao indivíduo (DEL PRETTE & DEL PRETTE, 2001).
Toda interação social se dá em determinados contextos e situações específicos e são regidos por normas da cultura mais ampla ou da subcultura. Portanto, além da dimensão pessoal (conhecimentos, sentimentos e crenças), o uso competente das habilidades sociais depende também da dimensão situacional (contextos onde ocorrem os encontros, status do interlocutor, presença/ausência de outras pessoas) e da cultural (valores e normas do grupo) (DEL PRETTE & DEL PRETTE, 2001).
Ao se deparar com as diferentes demandas sociais, os indivíduos precisam inicialmente identificá-las (decodificá-las) para, em seguida, decidir reagir ou não, avaliando sua competência para isso. Esta identificação ou decodificação depende, criticamente, da leitura do ambiente social, o que envolve, entre outros aspectos:
a) atenção aos sinais sociais do ambiente (observação e escuta);
b) controle da emoção nas situações de maior complexidade;
c) controle da impulsividade para responder de imediato;
d) análise da relação entre os desempenhos (próprios e de outros) e as conseqüências que eles acarretam.
Os objetivos de uma interação social podem ser os mais variados: transmitir ou obter conhecimentos, informações ou compreensão; solicitar mudanças de comportamentos, atitudes, crenças ou estado emocional do outro; obter produtos desejados; supervisionar atividades; manter conversação trivial. Supor que uma pessoa socialmente competente sempre atinge seus objetivos nas interações com as demais é uma noção equivocada. Embora a consecução dos objetivos esperados seja um dos indicadores do desempenho socialmente competente, este não é um critério a ser considerado isoladamente (DEL PRETTE & DEL PRETTE, 2001).
Atingir os objetivos os objetivos gera satisfação e uma auto-avaliação positiva, mas quando isso ocorre às custas de humilhação, auto-depreciação, falsas promessas, intimidação, pode, devido à incoerência entre pensamentos e ações, reverter em prejuízos para a auto-estima. Por outro lado, sacrificar os próprios objetivos ou priorizar necessidades e direitos do outro, em detrimento dos próprios, comportando-se de forma passiva, usualmente também afeta a auto-estima e a autoconfiança trazendo a médio ou mesmo a curto-prazo insegurança e relações sociais insatisfatórias para o indivíduo (DEL PRETTE.; DEL PRETTE, 2001).
Atualmente, defende-se a idéia de que as pessoas socialmente competentes são as que contribuem na maximização de ganhos e na minimização de perdas para si e para aquelas com quem interagem. Considerando a dimensão pessoal e os contextos situacional e cultural, o desempenho socialmente competente é aquele que expressa uma leitura adequada do ambiente social, ou seja, decodifica corretamente os desempenhos esperados, valorizados e efetivos para o indivíduo em sua relação com os demais (DEL PRETTE.; DEL PRETTE., 2001).
Às vezes, as relações sociais causam conflitos, em razão de posições filosóficas, econômicas, preconceituais, diferenças enfim, entre duas pessoas, entre a pessoa e seu grupo, ou entre grupos. Tais conflitos são estressores em potencial que, enquanto não resolvidos, causam ansiedade e podem se generalizar, acarretando outros problemas. Outro sentimento que costuma acompanhar os conflitos é a frustração, pois se na resolução do problema apenas um dos lados for considerado o outro fatalmente ficará frustrado e pessoas frustradas são potencialmente irritáveis, sensíveis à criação de novos problemas (DEL PRETTE.; DEL PRETTE., 2001).
No que se refere à expressão de sentimentos, pensamentos e ações, pode-se considerar as relações sociais uma importante fonte de aprendizagem dos indivíduos. Porém, esta aprendizagem pode ocorrer de modo incoerente através de três processos principais:
a) a observação e a imitação de padrões de dissimulação de outrem;
b) a punição para a expressão verdadeira de sentimentos e pensamentos;
c) a recompensa para a expressão não verdadeira de sentimentos e pensamentos (DEL PRETTE & DEL PRETTE, 2001).
REFERÊNCIAS:
ALBERTI, E. R.; EMMONS, M. L.Comportamento assertivo: um guia de auto-expressão. Belo Horizonte: Interlivros, 1978.
ALBERTI, E. R.; EMMONS, M. L.Como se tornar mais confiante e assertivo. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.
CABALLO, V. E. Manual de técnicas de terapia y modificación de conducta.Madri: Siglo Veintiuno, 1991.
CABALLO, V. E. Manual de avaliação e treinamento das Habilidades sociais. São Paulo: Santos Livraria, 2003.
DEL PRETTE, A.; DEL PRETTE, Z. Psicologia das relações interpessoais: vivências para o trabalho em grupo. Rio de Janeiro: Vozes, 2001.
DEL PRETTE, Almir e DEL PRETTE, Zilda A. P. No contexto da travessia para o ambiente de trabalho: treinamento de habilidades sociais com universitários. Estud. psicol. (Natal), sep./dez. 2003, vol.8, no.3, p.413-420.
DEL PRETTE, Z. A.; DEL PRETTE, A. O uso de vivências no treinamento de habilidades sociais.Em CABALLO, V.; MARINHO, M. L. (Org) Psicologia Clínica e da Saúde. Londrina, Ed. UEL, 2001.
MIGUEL, C. F.; GARBI, G. Assertividade no trabalho: descrevendo e corrigindo o desempenho dos outros. Em: CONTE, F. C.; BRANDÃO, M. Z. da S. (orgs.) Falo ou não falo? Expressando sentimentos e comunicando idéias. Arapongas: Mecenas, 2003.
FALCONE, E. O . Habilidades sociais: para além da assertividade Em: Wilenska, R. C. (Org) Sobre comportamento e cognição: questionando e ampliando a teoria e as intervenções clínicas e em outros contextos. Santo André: SET, 2000.
FALCONE, E. O. Uma proposta de um sistema de classificação das habilidades sociais. Em: GUILHARDI, H. J. (org) Sobre comportamento e cognição: expondo a variabilidade. Santo André, SP: Esetec, 2001. Vol. 8.
Por: Marcele Karasinski | 31/07/2009
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